Mulheres negras: luta contra discriminações requer união

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É preciso domar um leão por dia. A expressão é comum, mas talvez não seja coincidência o fato de as três entrevistadas para esta reportagem, sem se conhecerem, terem respondido exatamente isso quando questionadas sobre as demandas da mulher negra na sociedade atual. Não é mimimi, não é fantasia. É real e é diário – o machismo violenta, o racismo constrange, a transfobia oprime. E o cotidiano delas é enfrentar dois ou os três juntos. Ser mulher e ser negra e ser transexual é sangrar todos os dias – seja na própria pele, seja na da outra. A força, então (e isso nunca nos ensinaram), está na mistura: é preciso união para empoderar.

Unificar as pautas e rearticular o movimento de mulheres é primordial para impor a derrocada de um sistema que subjuga o gênero feminino, como avalia a estudante Liniane Santos, 25. “Isso foi muito forte na década de 1980, enfraqueceu em 2000, e agora tentamos retomar. Esse é nosso maior desafio: a urgência é que estejamos juntas e organizadas”, aponta a mestranda de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Afrobrasilidade, Gênero e Família (Nuafro).

Para Liniane, negra e moradora da periferia de Fortaleza, esse “reencontro” tem sido facilitado pelas redes sociais, que se tornaram uma “ferramenta de luta” e empoderamento. “É notório que estamos ecoando nossas vozes com maior facilidade, atentas para propor políticas públicas e ações que de fato incidam sobre as nossas vidas. As mulheres negras têm rompido esse lugar de silêncio e se colocado de forma mais incisiva, mesmo com o risco real de morte que se coloca”, aponta a pesquisadora.

Especificidades

Ao passo que é solução, porém, a união ainda se coloca como obstáculo. Segundo Liniane, outra demanda das mulheres negras na busca pela igualdade de direitos e por respeito é a compreensão das especificidades delas – por parte das próprias mulheres. “O feminismo é para romper machismo e patriarcado, nisso nossa luta é igual. Mas, na prática, as mulheres brancas precisam se colocar como antirracistas, reconhecer os privilégios, apoiar e agregar à luta”, pontua.

A professora da Universidade Regional do Cariri (Urca) e membra do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), Zuleide Queiroz, remonta que “o feminismo organizado no Ceará já era visto há 20 anos”, mas que, só depois de constituído, as necessidades das mulheres negras foram percebidas. “Na discussão mulher-raça-classe, vemos que quem se estabeleceu no trabalho serviçal pós-escravidão foi a mulher negra, o povo pobre. O menor acesso a condições de trabalho, educação e vida digna e a maior violência ficaram para elas”, alerta Zuleide.

A “herança”, aliás, se evidencia nas estatísticas: são jovens negros e da periferia os que mais morrem no Ceará, conforme dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). “É um extermínio. E quem são as mães deles? Mulheres negras. Tudo nos ataca. Não tem uma política que nos permita respirar. Todos os dias precisamos domar um leão: atrás de trabalho, saúde, lutar para que nossos filhos sobrevivam. Num momento de conjuntura de retirada de direitos, quem perde primeiro? Os mais pobres. Quem são os mais pobres? Os negros. Quem vai levar mais tempo para se aposentar? A mulher. A mulher negra”, desabafa a professora Zuleide Queiroz.

Para cruzar o mar revolto de retrocessos e de incansáveis tentativas de invisibilizar a causa negra, a ferramenta é uma só: educação. “Nós, mulheres negras, precisamos nos reconhecer como tais e entender qual a tarefa a isso estabelecida. Se atravessamos um oceano e chegamos a essa terra, temos tarefas sociais importantes. Uma delas é fazer com que a população negra sobreviva, possa se empoderar, estabelecer o seu lugar e repassar nossa identidade e nossa cultura para os jovens negros”, afirma.

Outro desafio, desta vez apontado por Liniane, é levar as discussões e o conhecimento às periferias, sobretudo de Fortaleza.

Organização

“Vivemos as perdas todos os dias e às vezes pensamos estar sozinhas. Essa é a impressão que dá quando a gente não se organiza. Quando a juventude negra entra na Universidade, em maioria meninas, leva o debate da negritude e da periferia lá pra dentro, pautas que não são vistas pela academia como importantes. Por isso mesmo é difícil trazer a contribuição das universidades para dentro dos territórios. A periferia se torna um laboratório”, critica a mestranda, que ingressou em Serviço Social na Uece em 2013 e, desde então, pesquisa sobre comunidades quilombolas e a resistência às mulheres negras.

Essa capacidade de resistir, aliás, é a única justificativa para os leões de todos os dias dos 32 anos da atriz – transexual, negra e gorda – Patrícia Dawson não terem conseguido devorá-la. “As demandas vão desde questões salariais até a violência física. A pessoa negra ainda é vista com o olhar marginal. ‘Ah, aquela neguinha vai me roubar, vai aprontar’. Eu me sinto privilegiada por ter um trabalho como artista, mas mesmo que eu tenha conquistado alguns espaços, não sinto pertença por eles, ao ver tantas ‘manas’ em busca de ter o básico”.

A união entre si, contudo, ainda não é compartilhada com as mulheres cisgênero – aquelas cujo sexo biológico corresponde ao gênero com o qual se identificam.

“Não vejo nenhuma mulher cis lutando pela causa de uma mulher trans negra. Existe essa falta de companheirismo, porque a realidade delas é outra, é privilegiada. Esse diálogo precisa existir. Precisamos sair do nosso mundinho e conhecer as coisas para perder o preconceito sobre elas. A vida da gente é conhecimento”, ensina a atriz.

Desde “gente levantar da cadeira do ônibus” ao vê-la perto até “situações de nojo, de não querer beber no mesmo copo, comer no mesmo prato”. São vários e diários os socos no estômago de Patrícia – cujo empoderamento serve de escudo. “O passado é tão presente que a gente nem imagina. Mas eu não deito, porque sei do que eu sou capaz, tenho certeza do que eu sou. Têm horas que entristece, mas nosso objetivo é maior. Por isso que a gente luta”. Para a pesquisadora da Urca, Zuleide Queiroz, o poder feminino ainda precisa descobrir o real sentido de uma palavra: encontro.

“Às vezes, eu percebo que a juventude negra não encontra lugar neste mundo, porque o tempo todo é negação: na rua e na escola, bullying; na parada de ônibus, Polícia. Hoje, quando tenho oportunidade de conhecer a história de mulheres negras, eu vejo que posso existir. Isso faz com que a gente se fortaleça. Nossos passos vêm de longe. E vêm de onde? De uma história que a gente antes não conhecia”.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste 

 

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