Saídas para enfrentar a desigualdade: Juventude, cultura e resistência

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Saraus e Reggaes são expressões da potência criativa nas periferias de Fortaleza

Em artigo publicado no dia 18 de setembro, aqui mesmo no Brasil de Fato Ceará, sugeri que muitas das soluções e saídas para o enfrentamento das desigualdades que assolam a grande maioria da população cearense já estão em curso nas cidades. Assim, apresento a partir de agora uma série de três artigos que tratam dessa questão.

Muitas dessas soluções e saídas, ao invés de receberem apoio do poder público, sofrem com perseguições e difamações por parte de instituições do Estado. Na capital cearense, são frequentes os casos de violência cometidos pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal em encontros organizados pela juventude em diversos bairros da periferia.

Já conhecidos na cidade, o Sarau do Papôco (Pici), o Sarau Bate Palmas (Conjunto Palmeiras), o Sarau da B1 (Jangurussu) e o Sarau Corpo Sem Órgãos (Conjunto Ceará), além de itinerantes como o Sarau Levante pela Paz – organizado pelo movimento Levante Popular da Juventude – , articulam várias linguagens estéticas e dão visibilidade e incentivo a jovens artistas que, quase sempre, passam ao largo dos holofotes e editais de cultura.

Invisíveis aos olhos dos recursos e apoios governamentais, são bastante conhecidos pelos agentes de segurança. Inúmeras denúncias de repressão, assédio e censura são relatadas pelos organizadores desses saraus, inclusive já repercutido aqui em matéria do ano passado.

O “Encontro de Saraus do Ceará”, lançou em 2019 uma nota de repúdio devido a atuação ostensiva da PM em vários eventos culturais nas periferias da cidade. Na ocasião, rechaçaram propostas de regulamentação e controle dos saraus, reafirmando o caráter autônomo e cooperativo das ações e projetos desenvolvidos, exigindo liberdade de expressão e de manifestação artística. Nas redes e mídias sociais desses coletivos podemos acompanhar um pouco das suas produções, lutas e resistências pelo direito de seguirem atuando.

A partir de meados de 2015, vários bairros de Fortaleza foram banhados por uma “onda de reggae”. No Pirambu, Mondubim, Bom Jardim, Vila Velha, Serrinha e outros, esse movimento foi efervescente, reunindo em algumas situações até 1000 jovens, gerando um clima de euforia nas novas e velhas gerações do ritmo jamaicano. Sob o pretexto de combate ao tráfico e ao crime organizado, os reggaes tornaram-se alvo constante das forças de segurança, dispersando e criminalizando os organizadores e frequentadores dos bailes.

As cidades são territórios ricos e potentes de experiências que ousam forjar e reinventar possibilidades reais de saídas para as consequências geradas pela abissais desigualdades que se perpetuam e se agudizam na sociedade brasileira. Outras expressões de resistência cultural, como bibliotecas comunitárias, quadrilhas juninas, maracatus, grupos de passinho, batalhas de rap, slams, etc., a trancos e barrancos, nadam contra a maré da barbárie e da violência estatal.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), no primeiro semestre de 2020 houve um crescimento de 163% no número de adolescentes assassinados em Fortaleza, em comparação com os seis primeiros meses de 2019. Em todo o estado, o aumento foi de mais de 149% no mesmo período. Nos seis primeiros meses do ano passado, o Ceará registrou 164 mortes de adolescentes. No mesmo período, em 2020, foram 409. Na capital também mais que dobrou as ocorrências de homicídios sofridas por jovens. Enquanto os seis primeiros meses de 2019 computaram 52 ocorrências, de janeiro a junho de 2020, houve 137 casos.

Por omissão ou protagonismo, o poder público é o grande responsável por esse genocídio. Ao invés de valorizar e apoiar ações que salvam vidas e promovem a paz, reproduz uma feroz política de terrorismo contra a inventividade e a organização da juventude.

Os donos do poder e do dinheiro têm consciência do potencial educativo e emancipatório de tais experiências, por isso a perseguição e o enfrentamento às iniciativas que tencionam com o fatalismo imposto aos jovens pobres e pretos.

Um certo pensador alemão – Karl Marx –  asseverou que o povo não deveria ser educado e tutelado pelo Estado, mas “o Estado que, ao contrário, necessita receber do povo uma educação muito rigorosa”. E nesse desafio histórico, as juventudes das periferias das cidades têm um papel fundamental, com sangue nos olhos e muita arte.

*Sociólogo, professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e militante da Consulta Popular.

Edição: Monyse Ravena

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