‘Bolsonaro atrasa a vacinação, favorecendo a rede privada’, diz Haddad

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Especialistas indicam que, sem estratégia coletiva, vacinação individual pela rede privada pode ser ineficiente
Vacinação contra o novo coronavírus já é realidade em mais de 50 países

São Paulo – Enquanto o governo Bolsonaro ainda não anunciou data para o início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, representantes de clínicas da rede privada de imunização devem viajar à Índia. Eles negociam a compra de 5 milhões de doses da vacina desenvolvida pelo laboratório Bharat Biotech.

A informação foi divulgada pelo presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), Geraldo Barbosa, neste domingo (3), em entrevista ao canal por assinatura GloboNews.

Segundo ele, a expectativa é de que o resultado da terceira fase de testes do imunizante indiano saia ainda neste mês de janeiro. Na sequência, o laboratório entraria com pedido de registro definitivo na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Num cenário “otimista”, o presidente da ABCVAC disse que o imunizante estaria disponível em clínicas particulares a partir da segunda quinzena de março. Barbosa também afirmou que as clínicas privadas não sofreriam com a falta de insumos para aplicação da vacina. “Já é do nosso negócio ter agulha e seringa, já é nosso estoque de rotina”.

Reação

O anúncio da ABCVAC causou reações de políticos e epidemiologistas. Os primeiros afirmam que qualquer vacina deve ser incluída no Plano Nacional de Vacinação, com distribuição gratuita e universal. Já os especialistas sustentam que um esforço não coordenado de vacinação pode resultar ineficiente.

Para o ex-candidato a presidente Fernando Haddad, a lentidão do governo Bolsonaro em garantir a vacina privilegia o ganho das clínicas particulares. “Bolsonaro atrasa a vacinação, favorecendo a rede privada. Paga com a vida quem não pode pagar pela vacina”, afirmou pelas redes sociais.

O deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) também afirmou que o esquema de vacinação deve priorizar as pessoas do grupo de risco, e não “quem tem dinheiro para furar a fila”. O deputado Ivan Valente (Psol-SP) também destacou que a vacinação precisar ser “uma política de estado e não uma solução de mercado”.

O líder do PT na Câmara, deputado Enio Verri (PT-PR) também criticou o governo Bolsonaro. Segundo ele, a maioria da população “agoniza” sem saber se terá vacina e quando começará a ser aplicada. Enquanto que “laboratórios privados estão comprando vacinas, que serão vendidas a quem pode pagar”.

Estratégia coletiva

Nas redes sociais, uma parcela dos usuários defende a vacinação pela rede privada. Eles acreditam que tal medida poderia desafogar a fila da rede pública, além de poupar recursos e insumos. As empresas também poderiam adquirir o imunizante, auxiliando no esforço coletivo. Mas especialistas advertem que essa ação pode ser ineficiente, além de agravar as desigualdades do país.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), “ninguém se salva sozinho”. Ela alertou para a necessidade de uma estratégia coletiva de vacinação. Inclusive a imunização de apenas parte da população poderia facilitar novas mutações do vírus. O biólogo e divulgador científico Átila Iamarino também ressaltou a importância de priorizar as pessoas do grupo de risco.

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