Sabiaguaba: “Estamos tentando o diálogo com a Prefeitura para que se vete o projeto”

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O Brasil de Fato entrevistou a moradora do bairro e ativista,  Gleiciany Queiroz

O Brasil de Fato Ceará entrevistou a moradora do bairro Sabiaguaba, em Fortaleza,  Gleiciany Queiroz, ela é mediadora de leitura e integrante do Coletivo Sabiá. No dia 8 de julho o Conselho Gestor da Sabiaguaba aprovou um projeto de loteamento com área superior de 50 hectares dentro da Área de Proteção Ambiental (APA), o tamanho equivale a, aproximadamente, 48 campos de futebol. Depois de críticas de diversos setores da sociedade civil, o projeto se encontra embargado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Confira trechos da entrevista abaixo.

Proteção e história do bairro

Tenho 25 anos, 24 anos desses como moradora da Sabiaguaba, cheguei aqui com um ano de idade e pude ver uma parte da mudança do bairro, quando eu cheguei, essa região onde moro foi uma das ocupações, uma das favelas. O Coletivo Sabiá nasce dessa vontade de jovens e amantes, que não basta só morar na Sabiaguaba, tem que amar esse bairro e fazer a diferença aqui. Tentamos trazer um pouco do que a gente vai aprendendo em nossas vivências de mundo, cine, fotografia, cuidado com os espaços, limpeza das praias e agora, fazemos um trabalho na biblioteca, incentivando a leitura.

A história sempre se repete, eles mudam só um pouquinho a forma de atuar, mas o quadro é o mesmo. Se a gente pegar a história do litoral de Fortaleza inteira, a gente vai ver o que acontece com as pessoas que residem onde chegam esses grandes empreendimentos, esse “progresso”.  A vida tradicional dessas pessoas, esse respeito que os moradores têm com o território, isso se acaba, não resiste. São pessoas de fora que chegam para morar e não conhecem a história desse local, não conhecem as lutas, não conhece nada do território, para eles vão ser só o local onde se reside. Já para quem mora aqui na Sabiaguaba há tanto tempo e há tanto tempo resiste, é mais do que isso, não é só lugar onde mora, tem história, tem tradição, tem uma parte do território que é ocupada desde o século XVIII, são pescadores, marisqueiras.

A luta para proteger a Sabiaguaba começa no fim da década de 1960 início de 1970, quando se começa a devastação da área, inicia-se os loteamentos em 1972, na área de praia, onde começa a chegada de mais pessoas aqui. Antes disso, apenas quatro famílias moravam aqui, afrodescendentes e indígenas, toda uma ancestralidade ligada ao território. Desde essa época se luta para proteger as dunas e as áreas verdes daqui. Em 2006 começa a ir para o papel, quando começamos a falar do plano de manejo e como manter aqui como uma área preservada.

O Estado chega aqui com um discurso que quer proteger e preservar, mas não é mais fácil e mais eficiente investir na comunidade que já mora aqui para preservar e proteger do que liberar 50 hectares de terra para uma empresa vim desmatar, para construir um condomínio planejado verde. Não faz sentido a maneira que o poder público quer atuar no território, sem antes consultar a comunidade. Todos que votaram a favor do projeto no conselho gestor moram fora da Sabiaguaba, nenhum que votou vivencia o território.

Avanço da especulação imobiliária

Como a Sabiaguaba é um dos últimos bairros que ainda tem boa parte de sua área verde, tem muito interesse da especulação imobiliária, eles estão implementando um conceito para que as pessoas que tem dinheiro possam morar em áreas mais verdes, possam respirar um ar mais limpo, e como grande parte da área verde da cidade já foi destruída, eles migram para esses locais que ainda estão preservados. O interesse desse loteamento aprovado é a destruição de uma área de mais de 50 hectares, que vem sendo preservada e protegida por uma comunidade que aqui mora e resiste, para atender o interesse de pessoas que tem dinheiro e, simplesmente, querem morar numa área verde.

A intensão do Conselho Gestor da Sabiaguaba, quando foi criado, foi com o intuito de preservar e atender os interesses dos moradores do bairro, mas não é o que a gente vê na prática, ao longo de três anos acompanhando o conselho. Nós vemos outras manobras para modificar a legislação, para atender os interesses da especulação imobiliária, ela chega ainda mais forte nesses territórios. Não tem como ser democrático um Conselho que boa parte das cadeiras estão na mão do Estado, boa parte das secretarias do município tem vagas no conselho e sendo que a comunidade só tem direito a quatro cadeiras, e duas ocupadas atualmente por entidades que não representam os interesses da comunidade. O mínimo que poderiam ter feito, era apresentar o projeto para a comunidade.

Logo após a votação do Conselho, que causou toda a comoção e repercussão depois do vídeo dos biólogos, a Secretaria do Meio Ambiente lançou uma nota afirmando que o empreendimento estava dentro da legalidade, não tinha nada irregular. O prefeito lançou uma nota, que para nós foi algo mais ou menos, onde ele não diz nada, só tentou se resguardar por conta, acreditamos nós, pela repercussão que tomou o caso. Nós estamos esperando um posicionamento que diga que o projeto está vetado, o loteamento não vai acontecer, a Sabiaguaba vai voltar a ser área de preservação ambiental, esperamos esse posicionamento.

Ausência do Estado

A Sabiaguaba é um bairro totalmente esquecido pelo poder público, nós não conseguimos trazer para o bairro uma praça, um posto de saúde, escutamos sempre a mesma frase, que a Sabiaguaba é uma área de proteção ambiental, que tem muita área verde e que não pode construir, e de repente, o Estado libera para uma construtora de fora lotear 50 hectares. Não há nenhum respeito por quem mora aqui.

Tem uma parte da comunidade que depende economicamente da área, tem pescadores, marisqueiras, e a tradição de coletar frutos, é uma região que tem muitos cajueiros e que as pessoas vão colher, tem muita coleta de frutos, sementes, palha da carnaúba para produzir cestos, ou para cobrir as barracas, com todo o respeito à natureza. Esse empreendimento impacta não só na economia, mas na tradição dessas pessoas, se passa de geração em geração a cultura de se juntar para entrar na mata para coletar frutos, e é justamente onde querem construir esse condomínio. Eles afirmam, de maneira irresponsável, que essa área está desmatada, e isso é mentira, temos fotos do local tiradas semana passada, nós provamos que ela é viva.

O que a gente percebe dos locais onde esses tipos de condomínio se estabeleceram é que a primeira coisa que eles fazem é a marginalização das pessoas que vivem próximo a esse local, terão a vida impactada, perderão as casas. O que eles querem é fazer uma higienização.

Próximos passos

Nós temos procurado o diálogo com a prefeitura de Fortaleza, com o Conselho Gestor nós nunca nos sentimos representados ou com direito a voz, já aconteceu dos conselheiros votarem para saber se a comunidade poderia, ou não, ter direito a falar numa discussão que impactaria dentro do bairro. Estamos tentando o diálogo com a prefeitura para que se vete o projeto, e que a Sabiaguaba volte a ser uma Unidade de Conservação Integral, e que ninguém mais queira tocar nessa área, compreendendo a importância do território, não só para a população que aqui reside, mas também para o restante de Fortaleza. Com esse loteamento a sociedade como um todo vai perder, os residentes no bairro, a fauna, a flora, as pessoas de Fortaleza irão sofrer com os impactos dessa destruição. Só quem vai ganhar é quem lucra com esse extermínio.

A população pode ajudar a barrar o projeto se colocando contra, se somando com a gente, a nossa única força é a pressão popular, é a voz das pessoas dizendo que não querem esse projeto. A gente acha que esse não é o momento, ainda estamos no meio da pandemia, então podem ajudar via internet, nosso papel é levar a verdade. O Iphan embargou o licenciamento que a prefeitura de Fortaleza deu para o empreendimento, pois encontrou irregularidades, que foi a falta de uma documentação, no dia que a empresa entregar esse documento, pode voltar tudo de novo. Esse embargo nos ajudou, pois ganhamos um pouco de tempo, mas vamos entrar com um processo no Ministério Público para ter mais força.

Edição: Monyse Ravena

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