Ao negar violência obstétrica, Ministério da Saúde ignora dores, traumas e mortes

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Reportagem do The Intercept Brasil reúne depoimentos que comprovam erro do governo Bolsonaro, ao decidir abolir o termo. Pelo menos uma a cada quatro mulheres sofre violência na hora do parto.

São Paulo – O Ministério da Saúde do governo Jair Bolsonaro decidiu abolir o uso da expressão violência obstétrica. Usada para indicar maus tratos sofridos por mulheres na hora do parto, a designação foi considerada “imprópria” pela pasta, de acordo com despacho publicado em 3 de maio, e que veio à tona nesta terça-feira (7).

Apoiado principalmente no entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM), que em 2018 qualificou a expressão como “uma agressão contra a medicina e a especialidade de ginecologia e obstetrícia”, o Ministério da Saúde alega que a violência obstétrica “tem conotação inadequada, não agrega valor e prejudica a busca do cuidado humanizado no continuum gestação-parto-puerpério”.

No entanto, são muitas as histórias de mulheres que sofreram tal violência. Estudo da Fiocruz informa: uma a cada quatro mulheres foi vítima de maus tratos na hora de dar à luz. Em reportagem de Bruna de Lara, do The Intercept Brasil, elas relatam o sofrimento que demonstra: a escolha do termo violência obstétrica não é um acaso, deixando os argumentos do governo parecerem meramente ideológicos.

A violência obstétrica dá conta de agressões médicas, de verbais a físicas, que deixam consequências para os bebês, com uso de instrumentos contestados, e para as mulheres – principalmente as negras –, que saem com dores e cheia de traumas, ou até perdem a vida. Uma realidade que corresponde à taxa de mais de 60 mulheres mortas a cada 100 mil nascidos vivos. O número cresce, a despeito e sob o descaso do Ministério da Saúde.

Confira a matéria na íntegra
The Intercept Brasil – A AMEAÇA FOI CLARA. Aline C. só poderia fazer força três vezes para sua filha nascer. Caso contrário, teria sua vagina cortada. Mesmo conseguindo parir, não escapou da tesoura. A dor do corte – chamado de episiotomia – se somou à das contrações que cessavam e à da experiência de ser transformada em cobaia. Durante o trabalho de parto, vários estudantes de medicina foram orientados a fazer o doloroso exame de toque em sua vagina para aprender a técnica. “Foi apenas [uma] instrução de como um corpo de uma mulher não precisa consentir para enfiar nada dentro dela”, escreveu em um relato no Facebook. Não bastasse, após o nascimento de sua filha, ainda teve que ouvir, em tom de piada: “Ano que vem você está aqui de novo”.

Todos os abusos físicos e verbais sofridos por Aline em 2012 têm um nome: violência obstétrica. O termo foi criado para dar visibilidade aos maus tratos que mulheres sofrem nas mãos de equipes de saúde ao dar à luz. Mas, em outubro de 2018, o Conselho Federal de Medicina decidiu inverter o significado da expressão. O órgão, em teoria responsável por fiscalizar e punir a má conduta médica, publicou um parecer em que classifica a violência obstétrica como “uma agressão contra a especialidade médica de ginecologia e obstetrícia” e, portanto, “contra a mulher”. O CFM, vale lembrar, também é responsável por defender os interesses corporativos da categoria.

Agora, cedendo abertamente a esses interesses, o Ministério da Saúde decidiu abolir o uso da expressão violência obstétrica. A pasta liderada por Luiz Henrique Mandetta publicou, no dia 3 de maio, um despacho alegando que ela tem “conotação inadequada, não agrega valor e prejudica a busca do cuidado humanizado”. Na esteira do CFM, o ministério decidiu que a melhor forma de lidar com a violência que uma a cada quatro mulheres sofre durante um parto é fingir que ela não existe. Mas o que não falta são relatos para lembrá-lo.

1 – Sozinha, agredida, cortada e costurada

Toda mulher tem direito a ter alguém de sua escolha na sala de parto. Essa é a determinação da Lei do Acompanhante, sancionada em abril de 2005. Quase 15 anos depois, porém, a legislação ainda é desrespeitada. Se a grávida for negra, a chance de ter o acompanhante negado – e de sofrer qualquer outra forma de violência obstétrica – é ainda maior.

Leia o depoimento clicando aqui.

https://www.facebook.com/renatinha.pedreira/posts/2073625666056520

2 – Vaginas cortadas sem permissão

Uma das violências mais comuns no parto é a episiotomia, um corte feito abaixo da vagina para aumentar o canal de passagem do bebê. Segundo a Organização Mundial da Saúde, não há nenhuma prova científica de que o corte, tão doloroso, seja necessário. Mas, no Brasil, mais da metade dos partos normais são feitos com episiotomia. Muitos deles, sem autorização.

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